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O psicólogo precisa diferenciar tristeza pós-parto de depressão pós-parto

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O pós-parto é um período de adaptação, muitas mudanças ocorrem na vida das mulheres que passam a assumir esse novo papel, o da maternidade. Mudanças nem sempre são vivenciadas de forma positiva, quando perdemos algo que era importante para nós, vivenciamos aquilo que chamamos de Luto. Luto é um processo de adaptação à uma perda significativa. 

Muitas mulheres que vivenciam o pós-parto se veem na situação de ter que deixar coisas importantes para elas, para trás, ou se veem na situação de ter que por um tempo não mais gozar de alguns prazeres, e tal situação pode entristecer a mulher, justamente porque ela nesse momento, faz o luto pela sua vida antiga, pelas coisas que sentia prazer em fazer e que por um tempo, ela pode não mais conseguir realizar. 

Tal sentimento de luto, que gera tristeza e desconforto emocional na mulher, não pode ser confundido com a Depressão Pós-parto, que é um Transtorno do Humor. E também não deve ser confundida com a disforia puerperal chamada Baby Blues, que dura cerca de duas a três semanas. 

O baby blues ocorre para cerca de 80% das mulheres após três dias do parto, essas apresentam uma melancolia, uma tristeza que não sabem muito bem de onde vem e porque estão sentindo. O Baby Blues é normal e é até mesmo esperado. O baby blues não é considerado um adoecimento mental e não necessita de intervenção farmacológica, ter uma boa rede de apoio familiar e social ajuda a puérpera passar esse momento sem grande perturbação psicológica. 

Já a depressão pós-parto por sua vez, tem prevalência de cerca de 20% (PEREIRA; LOVISI, 2008), e no Brasil essa porcentagem é considerada mais elevada (MOSSO et al., 2008; GUEDES et al., 2011; FIGUEIRA; DINIZ; SILVA FILHO, 2011). As mulheres que apresentam sintomas de depressão após o parto em sua maioria já apresentavam tais sintomas desde a gestação. 

A vivência da maternidade influencia tanto positivamente como negativamente nos comportamentos, pensamentos e emoções das mulheres. Se tornar mãe é experienciar comportamentos, pensamentos e emoções nunca vívidos ou sentido antes, e que não necessariamente são todos positivos. Se tornar mãe é também fazer o luto por tudo aquilo que é necessário deixar para trás mesmo que temporariamente. Não é simples se ver de uma hora para outra sem tempo para si mesmo, nas tarefas mais elementares como tomar banho, pentear os cabelos, escovar os dentes, dormir uma noite inteira e ainda assim receber visitas que não param de chegar e sempre com algum palpite para dar ou pior, ficam a observando e depois apontando o que julgam ser os seus erros na relação com o bebê. Portanto, a maternidade é também um processo de luto. 

As perdas significativas do que a mulher gosta de fazer, mesmo que essa perda for por um tempo apenas, podem influenciar sim no comportamento, pensamento e emoções dessas mulheres. Infelizmente vivemos em uma sociedade em que não é permitido à mãe se lamentar daquilo que não consegue mais tempo para fazer devido às exigências da maternidade e quando alguém tem coragem de se lamentar, em seguida já é bombardeada de críticas, pois como pode uma mãe se lamentar da maternidade? “Se está se lamentando é porque não deve estar em pleno juízo mental, portanto, só pode estar doente, só alguém doente é que se lamentaria da maternidade e, portanto, ela tem depressão pós-parto”, Só Que Não. 

É muito forte a representação social de que grávidas e mulheres que acabaram de dar a luz, estejam radiantes de felicidade, totalmente plenas, entretanto, isso é uma grande mentira que nos contam e a própria mulher gestante ou puérpera acredita nessa falácia, e pensa que há algo errado com ela e que provavelmente ela está então, doente, que está com a chamada depressão pós-parto. 

O luto materno pelas coisas que a mulher perdeu temporariamente, tal como, cuidar de si, estudar, trabalhar, sair com os amigos para baladas, beber, chegar de madrugada em casa, acordar a hora que quiser em um feriado ou final de semana, assistir um filme, fazer sexo, entre várias outras coisas, entristece a mulher, e o que vai dar o tom dessa tristeza é o quanto a mulher valoriza tais atividades, aquelas que não valorizam tanto, provavelmente passarão pelo processo do luto de forma bem tranquila e rápida, entretanto, aquelas que super valorizam algumas atividades que se pode fazer bem quando não se tem um bebê de meses em casa para cuidar, podem de fato passar pelo processo do luto de forma mais conflitiva e não rápida e isso não significa que a mulher está descontente com a maternidade, ou que não ame seu filho, longe disso, muito longe disso, é perfeitamente possível ser uma boa mãe, amar o filho e cuidar adequadamente dele, mesmo quando existe aí um pesar pelas coisas que gostaria de fazer, mas que no momento se encontra indisponível para tais ações. 

Tal processo de luto não tem a ver com depressão pós-parto, podemos sentir tristeza, sem estar doente, é próprio do ser humano se sentir triste diante algumas situações, a tristeza passa com o tempo, e não precisa ser medicada. Nós psicólogos precisamos saber discernir o que é tristeza e o que é adoecimento mental. A tristeza é uma emoção básica do ser humano e ela tem uma função importante em nossa evolução. A tristeza só se torna uma patologia, ou seja, se torna uma depressão, quando claramente há sintomas que prejudiquem a vida cotidiana do sujeito e/ou coloque em risco a sua própria vida e a de outros. Se a tristeza é tão profunda que a puérpera não consegue encontrar satisfação em mais nada, se isola em seu quarto, não quer se levantar ou fazer qualquer atividade pode ser um indicativo que a mulher não se encontra triste, mas depressiva, e aí sim, um encaminhamento para um diagnóstico realizado por um psiquiatra pode identificar se de fato a mulher está doente. 

Portanto, nós psicólogos devemos saber identificar um luto que está sendo elaborado de um adoecimento mental. 

Referencias

FIGUEIRA, P.G; DINIZ, L.M., SILVA FILHO, H.C. Características demográficas e psicossociais associadas à depressão pós-parto em uma amostra de Belo Horizonte. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul , Porto Alegre, v.33, n.2, p.71-75, jul. 2011.

GUEDES, A.C.E et al. Depressão pós-parto: incidência e fatores de risco associados. Revista de Medicina, v.90, n.3, jul./set. 2011.

MOSSO, F.T et al. Prevalência de depressão pós-parto em puérperas de Maringá, Saúde e Pesquisa, v.1, n.3, set/dez. 2008. 

PEREIRA, P.K.; LOVISI, G.M. Prevalência da depressão gestacional e fatores associados. Revista Psiquiatria Clínica, v.35, n.4, p.144-153, 2008. 

SCHIAVO, R.A. Desenvolvimento infantil: associação com estresse, ansiedade e depressão materna, da gestação ao primeiro ano de vida. 2016. 150 f. Tese (Doutorado em Saúde Coletiva) – Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista, Botucatu, 2016. 

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